sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Proust (entropatia) - Fragmento 2 de Um amor de Swann (No caminho de Swann - Em busca do tempo perdido)
Sabia que até a lembrança do
piano falseava ainda o plano em que via as coisas da música, que o campo aberto
ao músico não é um mesquinho teclado de sete notas, mas um teclado
incomensurável, ainda quase completamente desconhecido, onde apenas aqui e ali,
separadas por espessas trevas inexploradas, algumas dos milhões de teclas de
ternura, de paixão, de coragem, de serenidade que o compõem, cada qual tão
diferente das outras como um universo de outro universo, foram descobertas por
alguns grandes artistas que, despertando em nós o correspondente do tema que
encontraram, nos prestam o serviço de mostrar-nos que riqueza, que variedade
oculta, sem o sabermos, esconde essa grande noite indevassada e desalentadora
da nossa alma, que nós consideramos como vácuo e nada. Vinteuil fora um desses músicos. Na sua pequena frase, embora apresentasse à
razão uma superfície obscura, sentia-se um conteúdo tão consistente, tão
explícito, ao qual emprestava uma força tão nova, tão original, que aqueles que
a tinham ouvido a conservavam em si no mesmo plano que as ideias do
entendimento. Swann se reportava a ela
como uma concepção de felicidade e do amor e cuja peculiaridade sabia ele
imediatamente tão bem que consistia,
como o sabia quanto à Princesa de Clèves
ou a René, quando esses nomes se lhe
apresentavam à memória. Mesmo quando não
pensava na pequena frase, ela existia latente em seu espírito, da mesma forma
que algumas outras noções sem equivalente, como as noções de luz, de som, de
relevo , de volúpia física, que são as ricas posses com que se diversifica e
realça o nosso domínio interior. Talvez
as percamos, talvez se extingam, se voltarmos ao nada. Mas, enquanto vivermos, e tal como acontece
no tocante a qualquer objeto real, não podemos fazer como se as não tivéssemos
conhecido, como não podemos, por exemplo, duvidar da luz da lâmpada que se
acende diante dos objetos metamorfoseados de nosso quarto, de onde se escapou
até a lembrança das trevas. Assim, a
frase de Vanteuil, como determinado tema de Tristão,
por exemplo, que nos representa também certa aquisição sentimental, havia
esposado a nossa condição mortal e adquirido algo de humano que era assaz
comovedor. Sua sorte estava ligada ao
futuro e à realidade de nossa alma, de que ela era um dos ornamentos mais particulares,
mais diferenciados. Talvez o nada é que
seja a verdade e todo o nosso sonho não exista, mas sentimos que então essas
frases musicais, essas noções que existem em função do sonho, não hão de ser
nada, tampouco. Pereceremos, mas temos
como reféns essas divinas cativas que seguirão a nossa sorte. E a morte com elas tem alguma coisa de menos
amargo, de menos inglório, de menos provável, talvez.
Swann não se enganava, pois, em
crer que a frase da sonata realmente existia.
Humana sob esse ponto de vista, pertencia no entanto a uma ordem de
criaturas sobrenaturais que nunca vimos mas que apesar disso reconhecemos
enlevados quando algum explorador do invisível chega a captar uma delas, a
trazê-la, do mundo divino a que ele tem acesso, para brilhar alguns instantes
acima do nosso. Era o que fizera
Vinteuil com a pequena frase. Sentia
Swann que o compositor se contentara, com os seus instrumentos de música, em
desvelá-la, torná-la visível, em lhe seguir e respeitar o desenho com mão tão
sensível, tão prudente, tão delicada e tão segura que o som se alterava a todo
momento, esfumando-se para indicar uma sombra, revivescendo quando era preciso
seguir um contorno mais ousado. E uma
prova de que Swann não se enganava ao acreditar na existência real daquela
frase, era que qualquer amador um pouco atilado logo se aperceberia da
impostura de Vanteuil, com menos poder para divisar e transmitir as suas
formas, houvesse procurado dissimular as lacunas de sua vista ou a inabilidade
de seus dedos, acrescentando-lhe aqui e ali alguns toques de sua própria
invenção. (tradução de Mário Quintana)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
Proust (metaliteratura) - fragmento 1 de Combray (No caminho de Swann - Em busca do tempo perdido)
Recordando então o olhar que deixara deter-se em mim durante a missa, azul como um
raio de sol que houvesse atravessado o vitral de Gilberto, o Mau, disse eu
comigo: "Mas sem dúvida ela reparou em mim!" Julguei que lhe agradava, que ainda pensaria
em mim depois que deixasse a igreja, que por causa de mim talvez se sentisse
triste naquela mesma tarde, em Guermantes.
E em seguida me apaixonei por ela, pois se às vezes basta, para que nos
enamoremos de uma mulher, que nos olhe com desprezo, como eu julgara tinha
feito a filha de Swann, e que pensemos que ela nunca será nossa, também outras
vezes basta que nos olhe com bondade, como fazia a senhora de Guermantes, e que
pensemos que ela ainda poderá ser nossa.
Seus olhos azulavam como uma pervinca impossível de colher e que no
entanto ela me houvesse dedicado; e o sol, ameaçado por uma nuvem, mas
dardejando ainda com todo o vigor sobre a praça e a sacristia, dava uma
carnação de gerânio aos tapetes vermelhos estendidos em terra para a solenidade
e por onde avançava sorrindo a senhora de Guermantes, e acrescentava à lã dos
mesmos um róseo aveludado, essa espécie de meiguice, de grave doçura na pompa e
na alegria, que caracterizavam certas páginas do Lohengrin, certas pinturas de Carpaccio, e que fazem compreender
que Baudelaire possa ter aplicado ao som do clarim o epíteto de delicioso.
Quantas vezes depois daquele dia, em meus passeios
para os lados de Guermantes, não me pareceu ainda muito mais aflitivo que
anteriormente não ter nenhum pendor para as letras e ver-me obrigado a
renunciar de uma vez por todas a tornar-me um escritor famoso? Tanto me fazia sofrer esse pesar, enquanto me
punha a cismar sozinho, um pouco afastado dos outros, que meu espírito, espontaneamente,
em uma espécie de inibição ante a dor, deixava por completo de pensar em
versos, em romances, em um futuro poético que minha falta de talento me vedava
esperar. E então, muito fora de todas
essas preocupações literárias e em nada ligados a ela, eis que de súbito um
telhado, um reflexo de sol em uma pedra, o cheiro de um caminho, faziam-me
parar pelo prazer único que me davam, e também porque pareciam ocultar, além do
que eu via, alguma coisa que eles convidavam a colher e que me era
impossível descobrir, apesar dos
esforços que fazia. Como sentia que
aquilo se achava neles, eu ali ficava imóvel, a olhar, a respirar, procurando
ir com o pensamento além da imagem ou do odor.
E se tinha de correr atrás de meu avô para continuar o passeio, fazia-o
de olhos fechados, atento em relembrar exatamente o perfil do telhado ou o matiz da pedra, que, sem que
eu soubesse o motivo, me haviam parecido replenos, prestes a entreabrir-se, a
revelar-me aquilo que não eram mais que a cobertura. Claro que impressões desse gênero não iam
restituir-me a perdida esperança de me
tornar um dia escritor e poeta, pois estavam sempre ligadas a algum objeto
particular desprovido de valor intelectual e sem nenhuma relação com qualquer
verdade abstrata. Mas, pelo menos me davam
um prazer irreflexivo, a ilusão de uma espécie de fecundidade, e assim me
distraíam da tristeza, da sensação de impotência que experimentava cada vez que
me punha a buscar um assunto filosófico para uma grande obra literária. Mas tão árduo era o dever de consciência que
me impunham essas impressões da forma, de perfume ou de cor - procurar o que
atrás delas se ocultava - que em seguida buscava escusas que me subtraíssem a
tais esforços e me poupassem a tamanha fadiga.
Por felicidade, meus pais me chamavam, e eu via que naquele momento me faltava
o sossego necessário para prosseguir satisfatoriamente minhas pesquisas, e que
seria melhor deixá-las para quando estivesse em casa, e não me fatigar
previamente sem resultado. E já não me
preocupava com aquela coisa desconhecida que se envolvia em uma forma ou em um
perfume e agora estava quieta dentro de mim, pois a vinha trazendo para casa,
protegida como esses peixes que eu carregava em um cesto de volta da pescaria,
bem cobertos com uma camada de ervas que lhes conservava a frescura. Uma vez em casa, punha-me a pensar em outra
coisa, e assim iam se acumulando em meu espírito (como em meu quarto as flores
que eu colhera durante os passeios ou os objetos que ganhara de presente) uma
pedra onde brincava um reflexo, um telhado, um som de sino, um cheiro de
folhas, imagens inúmeras e diversas debaixo das quais há muito tempo jaz morta
a pressentida realidade, que me faltou vontade suficiente para descobrir.
Um dia, no entanto - em que nosso passeio se
prolongara muito mais do que habitualmente, e a meio-caminho, no
regresso, já pelo fim da tarde, tivemos o prazer de encontrar o doutor
Percepied, que passava a toda velocidade em seu carro e nos reconheceu,
fazendo-nos embarcar com ele -, senti eu uma impressão desse gênero e não a abandonei
sem tê-la aprofundado um pouco. Havia-me
acomodado junto ao cocheiro, íamos com o vento porque antes de chegar a Combray
o doutor tinha de parar em casa de um doente, a cuja porta ficou combinado que
o esperaríamos. Na curva de um caminho,
senti, de súbito, aquele prazer peculiar que não se assemelhava a nenhum outro
ao avistar as duas torres de Martinville, batidas do sol poente e que o
movimento de nosso carro e os ziguezagues do caminho faziam mudar de posição, e
depois a torre de Vieuxvicq que, separada das primeiras por uma colina e um
vale, e situada ao longe em um planalto mais elevado, parecia no entanto bem
próxima delas.
Verificando, observando a forma de sua agulha, o
deslocamento de suas linhas, o ensolado de sua superfície, eu sentia que não ia
até o fundo de minha impressão, que alguma coisa havia atrás daquele movimento,
atrás daquela claridade, alguma coisa que elas pareciam conter e ocultar ao
mesmo tempo.
Tão afastadas se encontravam as torres e tão pouco
me parecia aproximar-nos delas que fiquei atônito quando paramos, instantes
depois, diante da igreja de Martinville.
Ignorava o motivo do prazer que tivera ao avistá-las no horizonte, e a
obrigação de procurar desvendá-lo me parecia muito penosa; tinha vontade de
guardar de reserva na cabeça aquelas linhas que se moviam ao sol e não mais
pensar nelas por enquanto. E é provável
que, se o fizesse, as duas torres teriam ido reunir-se para sempre a tantas
árvores, telhados, perfumes, sons, que eu diferenciara dos outros por causa
daquele obscuro prazer que me haviam proporcionado e que eu nunca
aprofundara. Desci para conversar com
meus pais enquanto esperávamos pelo doutor.
Depois prosseguimos, retornei a meu lugar na boleia, voltei a cabeça
para ver de novo as torres, que um pouco mais tarde avistei pela última vez na
volta de um caminho. Como o cocheiro não
parecia disposto a conversar e mal respondera a minhas perguntas, vi-me
forçado, na falta de outra companhia, a recorrer a minha, tentando relembrar
minhas torres. E logo, como uma casca,
romperam-se suas linhas e superfícies, mostrando-me um pouco do que ali se
achava oculto, e tive um pensamento que não existia para mim um momento antes,
que se formulou em palavras em minha cabeça, e isso de tal forma aumentou o
prazer que havia pouco me dera a vista
das torres que, tomado de uma espécie de embriaguez, não pude mais pensar em
outra coisa. Naquele momento, e como já
estivéssemos longe de Martinville, voltei a cabeça e avistei-as de novo,
completamente negras desta vez, pois o sol já se escondera. De quando em quando as voltas da estrada mas
ocultavam, depois elas se mostraram uma última vez e por fim não mais pude
vê-las.
Sem confessar-me que aquilo que estava oculto atrás
das torres de Martinville devia ser algo assim como uma bela frase, pois que
aparecera sob a forma de palavras que me causavam prazer, pedi lápis e papel ao
doutor e, para aliviar a consciência e obedecer a meu entusiasmo, compus,
apesar dos solavancos do carro, o pequeno trecho seguinte que encontrei depois
e no qual fiz apenas algumas ligeiras modificações:
"Sozinhas, erguendo-se
do nível da planície e como perdidas em campo raso, subiam para o céu as duas
torres de Martinville. Em breve vimos
três: vindo colocar-se a sua frente em uma volta atrevida, reunira-se a elas
uma torre retardatária, a de Vieuxvicq.
Os minutos passavam, íamos depressa e no entanto as três torres estavam
sempre ao longe, a nossa frente, como três pássaros pousados na planície,
imóveis, e que a gente divisa ao sol.
Depois a torre de Vieuxvicq se afastou, marcou suas distâncias, e as
torres de Martinville ficaram sós, alumiadas pela luz do poente que, mesmo
àquela distância, eu via brincar e sorrir em suas telhas. Demoráramos tanto em aproximar-nos das torres
que eu ainda pensava no tempo que nos faltava para atingi-las quando de repente
o carro, depois de dar uma volta, nos depôs a seus pés; e tão rudemente se
haviam lançado elas de encontro ao carro que mal se teve tempo de parar para
não esbarrarmos no pórtico. Prosseguimos
viagem; fazia pouco que deixáramos Martinville e que a aldeia desaparecera,
depois de nos ter acompanhado alguns segundos e ainda suas torres e a de
Vieuxvicq, ficando sozinhas no horizonte a ver-nos fugir, agitavam em sinal de
despedida seus cimos ensolarados. Às
vezes uma se afastava para que as outras pudessem avistar-nos um instante
ainda; mas a estrada mudou de direção, delas voltearam na luz como três gonzos
de ouro e desapareceram de minha vista.
Mas um pouco mais tarde, já perto de Combray e depois que o sol se
sumira, avistamo-las uma última vez, de muito longe, não parecendo mais que
três flores pintadas sobre o céu, acima da linha baixa dos campos. Faziam-me
também pensar nas três meninas de uma legenda, abandonadas em uma solidão onde
já tombava a treva; e enquanto nos afastávamos a galope, via-as timidamente
procurar o caminho e, depois de algumas indecisas oscilações de suas nobres
silhuetas, apertarem-se umas contra as outras, deslizarem uma atrás da outra,
formarem sobre o céu ainda róseo nada mais que uma única forma negra,
encantadora e resignada, e desaparecerem dentro da noite."
Jamais
tornei a pensar em tal página, mas naquele instante, ao terminar de escrevê-la,
na ponta do assento onde o cocheiro do doutor costumava colocar um cesto com as
aves que comprara no mercado de Martinville, achei-me tão feliz, sentia que ela
me havia desembaraçado tão perfeitamente daquelas torres e do que ocultavam
atrás de si, que, como se fosse eu próprio uma galinha e acabasse de pôr um
ovo, pus-me a cantar a plenos pulmões.
(tradução de Mario Quintana)
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Luiz Felipe Pondé: A esperança de Pandora
No dia 28 de dezembro, a Folha de São Paulo nos brindou antecipadamente o Ano Novo com um pequeno ensaio do Pondé.
A esperança é o último dos "males" escondidos na caixa de Pandora. Mas quem é Pandora?
Pandora é a mulher criada por Zeus para nos castigar. Pandora é uma espécie de Eva grega, com a diferença de que o culpado por ela ter sido criada para nos fazer sofrer é um "homem": Prometeu.
Sabemos que Prometeu foi aquele que nos deu a "técnica do fogo", contra a vontade de Zeus. Este, para castigar Prometeu, o teria pregado a uma pedra para ter seu fígado comido por uma ave pela eternidade. Zeus parecia acreditar que com essa "técnica do fogo" nós faríamos bobagens. Mary Shelley, no século 19, chamará seu doutor Frankenstein de "o Prometeu Moderno", numa referência clara à desmedida ("hybris") técnica do homem moderno, representada pelo médico Frankenstein, que "cria um homem", se igualando a Deus.
Na Grécia, portanto, já apareceria esse "medo" de querermos saber o que os deuses sabem. E que sofreríamos com isso. Mary Shelley, a romântica, revela o medo da ciência como ferramenta de desmedida. Esse assunto (medo da ciência) dá o que falar, mas não vou falar dele hoje. Entretanto, não tenho dúvida de que podemos arrebentar nossa vida e o mundo com essa marca de sermos seres "sem medida".
Mas voltemos a Pandora. Pandora é criada com um traço de personalidade: ela era uma curiosa. Sabendo disso, quando Zeus dá para ela a caixa e diz para não abri-la, sabe que ela o fará. E, quando o fizer, deixará escapar as misérias que atormentarão o mundo. A curiosidade de Pandora também é uma face da desmedida. Mas, pergunto eu: até onde podemos ser curiosos sem nos causar problemas? Ninguém sabe. Muita curiosidade mata, mas é sinal de vida. Pouca curiosidade faz de você uma pessoa mais cuidadosa, mas, talvez, sem vida. Um pouco de sangue nos olhos é necessário para gozar a vida?
A curiosidade de Pandora, assim como a técnica, são faces da mesma desmedida. Esse é nosso destino, segundo a visão trágica. Acho que os gregos tinham razão. Sempre andaremos em círculos, num eterno retorno do mesmo destino sem medida. Não há avanço acumulativo na história, pois o "avanço" pode ser, ele mesmo, a desmedida.
A ideia de um avanço acumulativo da história humana ou progresso em direção a um fim que revelará o sentido último da história e da vida (a "escatologia" em teologia) é fruto do mundo bíblico. Por isso a esperança como traço humano é tão diferente se compararmos Jerusalém com Atenas.
Na terra de Israel, a esperança é, justamente, o que sustenta a vida em tensão para o futuro. Um futuro que dará sentido a tudo que vivemos. Impossível não deduzir daí um sentido para a história e para a vida.
Na terra de Pandora, a esperança é um dos males que nos faz sofrer. Como a esperança pode ser um mal?
Não estou aqui pensando nesse conceito pseudopolítico e picareta conhecido como "utopia", que é, sim, um mal. Mas, como viver sem esperança? Mesmo Viktor Frankl, psiquiatra sobrevivente do Holocausto, dizia que a experiência de sentido (e a esperança é irmã do sentido) era essencial para suportar o espaço por excelência onde os judeus viveram a "utopia nazista", os campos de extermínio.
No mundo trágico, "ter esperança" é uma forma da desmedida. Eis a tragédia numa de suas representações máximas. Se, por um lado, sem esperança somos seres destruídos em nossa espinha dorsal espiritual e psicológica, por outro, "ter esperança" é uma profunda ilusão com relação ao destino humano. A esperança é uma forma de tortura justamente porque não há nenhuma esperança. Como dizia o oráculo de Delfos: somos mortais.
Vemos aqui como não se pode dizer que desmedida e pecado sejam a mesma coisa. A esperança no mundo bíblico nos aproxima de Deus e o pecado nos afasta Dele. No mundo grego, a esperança nos torna ainda mais vítimas de nosso destino sem saída e, assim, se revela como mais uma forma de castigo divino.
Afora a religião ou a filosofia, talvez a esperança seja mais uma questão de "índole", como diria nosso antropólogo Roberto DaMatta. Alguns são filhos da esperança, outros, do desespero. Enfim, bom 2016.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2015/12/1723454-a-esperanca-de-pandora.shtml?cmpid=compfb#_=_
sábado, 19 de dezembro de 2015
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Casamento e Familia nos Dias de Sempre
A XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que ocorreu no Vaticano, acabou em 25 de outubro. Sua pauta foi A Vocação da Família na Igreja e no Mundo Contemporâneo. Durante a Santa Missa para seu encerramento, o Papa Francisco falou de duas tentações:
(1) uma espiritualidade da miragem - "podemos
caminhar através dos desertos da humanidade não vendo aquilo que realmente
existe, mas o que nós gostaríamos de ver; somos capazes de construir visões do
mundo, mas (....) [aceitamos] uma fé que não sabe radicar-se na vida das
pessoas, permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos".
(2) uma fé de tabela - "podemos caminhar
com o povo de Deus, mas temos já a nossa tabela de marcha, onde tudo está
previsto: sabemos aonde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os
nossos ritmos e qualquer inconveniente perturba-nos. Corremos o risco de (....) [perdermos] a
paciência (...). Jesus, pelo contrário, quer incluir, sobretudo quem está
relegado para a margem e grita por Ele. Estes, (....), têm fé, porque saber-se
necessitado de salvação é a melhor maneira para encontrar Jesus".
Com a Sagrada Família, aprendemos a correspondência permanente entre a inventiva do Espírito Santo e o acolhimento hospitalar que torna cada família esperança nossa de futuro para a humanidade. Mesmo que brutos assaltem as nossas casas. Que a madrugada amanheça afogada em terror.
Diálogo e contexto, diz o Papa Francisco. Em meu contexto, a partir de soluções pragmáticas, casamento e família podem muito bem ser nomes dados a diversas relações afetivas e domésticas, mas com iguais efeitos jurídicos e sociais. Se alguém me diz casado ou parte dessa ou daquela família e assim deve ser tratado por normas de convívio civilizado, rezo para que encontre nesse seu "sim" o sentido mais nobre. Mas, também será o mais servil. Digo isso consciente de que expressões como "autoestima" e "busca da felicidade" podem ocultar vazies, impiedade, vaidade e egoísmo. Males que magoam e condenam qualquer um à solidão em meio à multidão.
Se casamento ou a maternidade/paternidade existem para minha felicidade, é porque alguém escolheu me fazer feliz. Não por amizade. Não por cidadania. Família só é esperança, e não um arranjo, porque alguém nunca desistiu de mim. Morreu assim. Não foi porque se sentisse preparado para isso, nem porque gostasse disso. Simplesmente, porque era quem foi, fez de mim, mais do que eu mesmo, quem sou.
O fundamento ético da família não se manifesta num afeto duradouro ou em direitos reconhecidos ou em fatos científicos. Ele se manifesta no embrião que ninguém pediu. Aconteceu. Vingou em cada progrom. E, por isso mesmo, como ele é, está destinado a vencer a pior das desgraças. É o angustiante paradoxo que se manifesta em toda a sua grandeza na verdade heroica da fé. quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Ser Pai no Intransitivo
Se hoje me perguntarem por onde andei, direi: "vendo meus filhos crescerem." Já quis ser muita coisa. Mas, só hoje sei quem sou. Sou pai. E isso basta. Mas, o que é ser pai? É ser para a morte. Trocando em miúdo, ser pai é pensar, apesar de toda angústia de nada mais ser, que vive e morre por, com e para seus filhos. Se eu morrer antes de meus filhos, serei pai em assim ter pensado viver. E minha vida e morte terão sido criadoras da memória em meus filhos de assim bem querer viver e morrer. Mas, se algum de meus filhos morrer antes de mim, fechar-me-ei em luto e a angústia me tomará. Mas, não serei infeliz na confortante lembrança de que ele pôde contar com o pai por todos os dias de sua vida.
Ser pai é assim: inicia-se com vida nova, mas só se consuma na morte. Só que a morte não é o fim de ser pai.
Meus filhos, eis-me aqui! Ouvem a voz e fazem a vontade de seu pai! Tomem-me por inteiro de mim mesmo! Pois, sou quem sou, sendo, ao mesmo tempo, pai e filho de meu pai.
Sicut erat in principio et nunc et semper et in saecula saeculorum.
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