Fez parte da graça surpreender no III EBPC em Palmas com o ensaio Cooperação como valor de identidade universal das cooperativas - uma abordagem teológica. São acadêmicos de Direito, economia, contabilidade, administração, pedagogia que se reúnem e... como foi comentado entre risos por um colega depois da apresentação: "vim assistir pensando que era um erro de digitação e o artigo fosse de teleologia, mas era teologia mesmo!" O texto sairá nos anais do Encontro e em breve estará disponível pela internet. Por ora, apresento como fiz aos colegas de academia e profissão.
Nosso
amigo Ênio Meinen, um sincero e entusiasmado cooperativista honorável, nos
conta que o Prof. Robert Shiller da Universidade de Yale, laureado com o
Prêmio Nobel de Economia em 2013 palestrou na 2ª Cúpula Mundial do
Cooperativismo. Ele falou
sobre como direcionar os negócios e finanças para o desenvolvimento de uma
boa sociedade.
Nas palavras escritas pelo Ênio tiradas da palestra:
“Boa sociedade” é a que tem bons
cidadãos. É
aquela na qual as pessoas fazem o que esperam dos seus semelhantes (ou, não
fazem aos outros o que não querem que estes lhes façam). Respeitar os outros
como seres humanos – pessoas, e não como objetos. Esta é a “Lei de Ouro”, o
critério universal da conduta humana. Está no Upanishad, no Budismo… E assim
também disse Confúcio!
O conceito em questão está muito próximo
do modelo da cooperação. O
movimento cooperativo constitui uma inovação essencial para uma boa e nova
sociedade. É, portanto, uma iniciativa sempre atual para esse propósito. O
movimento cooperativo reconhece o livre comércio, mas que, singularmente, não
tem o lucro como objetivo primeiro.
Empatia
é um valor importante. Significa cultivar os mesmos sentimentos da outra
pessoa. Esse termo não exista até o início do Século XX. Quem o cunhou foi
Theodor Lipps. Isso é diferente de simpatia, um sentimento de pena, uma
concessão e não um compartilhamento. Esse pelo menos é o significado no sentido
inglês do termo.
Uma palavra próxima de empatia, e igualmente nova, é
neurônio-espelho (mirror neuron). Cooperativismo tem tudo a ver com
empatia e “neurônio-espelho”. As cooperativas surgiram no
Século XIX, durante a revolução industrial, e muito se desenvolveram a partir
do Século XX. A ação cooperativa é, portanto, antecedente à criação das duas
palavras, e possivelmente inspirou a sua concepção. Cooperativismo,
enfim, é sinônimo de boa sociedade.
O
cooperativismo, no entanto, também irá mudar com o tempo. A tecnologia da
informação trará muitas inovações formidáveis… O movimento precisa ser
receptivo quanto a isso, e assim irá manter-se atual.
Este
relato do Ênio é um excelente ponto de partida para a apresentação do meu
artigo.
O
conceito de empatia em Lipps ainda estava associado a um tipo de imanentismo (o psicologismo) muito em voga no Sec.
XIX. Houve, no entanto, um salto na virada
do Sec. XX da percepção da empatia à compreensão de que a consciência não tem
lugar (no neurônio, por exemplo). Que
consciência é uma dinâmica, uma relação.
Este salto se deu, quando Max Scheler escreveu o Formalismo Ético e a Materialidade dos Valores, leitura com qual se
pode compreender a cooperação como valor, e não como forma, modelo ou
comportamento.
A
empatia como atividade corporal e os valores como matérias ideais transcendentes
são então temas da tese de doutorado de Edith Stein, uma aluna de Max
Scheler mais tarde canonizada pela Igreja Católica e também conhecida como
Santa Teresa Benedita da Cruz. A ética
a partir da teoria de Max Scheler para os valores ainda foi tema de uma tese de
doutorado escrita por outro ilustre católico, também canonizado como santo, o
Papa João Paulo II.
O
problema da empatia entre a cooperação como comportamento de raiz neurológica e
como um absoluto material, ideal e transcendente pode ser percebido na correlação
entre a palestra de Robert Shiller e o filme de terror em cartaz Livrai-nos do Mal.
Trata-se
do mesmo confronto encontrado entre o pensamento de Jean-Paul Sartre, autor de A Náusea e a trilogia Os Caminhos da Liberdade, e de Albert
Camus, autor de O Estrangeiro e de A Peste.
Ambos
eram muito amigos e em Camus, Sartre se inspirou confessadamente para conceituar
o intelectual engajado. Depois, romperam
um com o outro. Em que pese a tese de seu doutorado sobre Santo Agostinho e em
que pese também seu próprio ateísmo, a respeito da opção de Sartre pelo
marxismo, em Nem Vítimas, nem Carrascos,
Camus fez um comentário que permanece muito atual:
"O terror não se legitima a não ser que admitamos o
princípio: 'o fim justifica os meios'. E
esse princípio só pode ser admitido se a eficácia de uma ação for considerada
um objetivo absoluto, como é o caso das ideologias niilistas ou nas filosofias
que fazem da história um absoluto. "
Sartre,
por sua vez, fez um comentário irônico a respeito de Camus muito ilustrativo de
seu próprio modo de perceber o problema: "Camus se acredita fora da história e se
vê ingressando nela de tempos em tempos".
O mesmo
problema foi exposto de uma maneira bastante divertida pelo Prof. Emmanuel
Carneiro Leão, único brasileiro que foi orientado por Heidegger e se tornou
leitor do grego arcaico. A letra de Carneiro Leão é esta:
Soren Kierkegaard encontrou na história de Abraão o paradoxo da
fé. Nos versículos 1-12 do Capítulo 22
do livro do Gênesis, Deus ordena Abraão a sacrificar Isaac, filho único que lhe
chegou na velhice. Uma angústia de morte
se apodera do coração de Abraão, com a alternativa 'ou/ou', de um paradoxo
insolúvel: ou matar Isaac e cometer um
filhicídio, ou não matar Isaac e cometer um deicídio. O conflito lhe traz um paradoxo indomável com
toda a carga de angústia da existência humana.
É o conflito ambivalente da fé que sempre lança o crente na tragédia de
um beco sem saída. Toda fé é o paradoxo
de uma vida sem alternativa.

O crítico moderno, porém, pergunta como é que Abraão tem certeza
de ter sido realmente Deus quem ordenou o sacrifício. Esta dúvida é o do descrente moderno,
perseguido sempre pela certeza. Mas não
é a dúvida de Abraão. Abraão não
duvida. Leva Isaac com dois amigos para
oferecer o sacrifício no monte indicado por Deus. Na caminhada, Isaac pergunta ao pai se não
está faltando nada para o sacrifício.
Estão aqui a lenha, o fogo, a ara, a faca... só falta a vítima. Abraão responde que Deus providenciará. Deixa os dois amigos no sopé do monte e sobe
com Isaac. No lugar indicado arma o
altar, põe lenha debaixo e amarra Isaac em cima. Quando vai sacrificar o filho, ouve uma voz
que diz: "Abraão, Abraão, não é para matar a criança, foi apenas para
testar a fidelidade de sua fé".
Aliviado, Abraão solta Isaac.
Até aqui reza o relato do Pentateuco. A descrença moderna, no entanto, não para
aí. Procura uma explicação racional para
fato tão estranho e continua:
desamarrado, Isaac desce o morro correndo, e embaixo encontra os amigos
que, espantados, perguntam o que houve.
Ainda apavorado, Isaac responde: o velho endoidou. Com o papo de sacrifício ele queria mesmo era
me matar. Se eu não sou ventríloquo,
agora estaria morto.
Esta tentativa jocosa de explicar racionalmente que o paradoxo
da fé não passa de um ventrilóquio supõe que a fé é um fato entre fatos e não o
paradoxo, que na angústia do coração cria o perfil singular da existência
humana.
Qual é o problema?
Se a identidade tem sido uma preocupação
constante para as cooperativas, ela assume feição de um dilema angustiante em
suas realizações: como expor os princípios de identidade cooperativa
e promover fidelidade a eles em meio às manobras pelos consensos e às pressões
por resultados? A resposta pela educação
é ingênua, na medida em que a ética suscita indagações cujas respostas são
irredutíveis imediatamente à cognição e à habilidade.
Intrigado com esse dilema, empreendi uma
investigação na qual constatei que a declaração vigente para a Aliança
Cooperativa Internacional sobre a identidade cooperativa não distingue a cooperação
da cooperativa[i]. Ora, se uma sociedade, uma propriedade, ou um ato só
por serem cooperativos, já não nos
são indiferentes, cooperativistas que
somos, suportam em comum um valor
singular, mas que lhes transcende - a
cooperação.
Essa indistinção entre cooperação e
cooperativa induz o Plano de Ação da Década Cooperativa (o Blueprint da ACI) a expressar a cooperativa como forma ou modelo, conquanto sua materialidade é tomada por empresarial: uma empresa (atividade) sob forma cooperativa[ii].
O problema:
Uma
identidade que nos seja afetiva não pode ser reduzida à forma sem que isso se
torne um problema. Pois para nos afetar, o valor que essa identidade suporta -
a cooperação - precisa ter fundamento
material, ainda que seja também idealizado.
Como lidar com o problema?
A ACI está adotando um discurso erigido a partir da relação racional entre meios e
fins. Em linguagem recorrente, a
cooperativa aparece como uma atividade (meio) para a felicidade e
sustentabilidade (fim). A cooperação
então não aparece como um bem por si, pois é neutra, objetiva e racional. Aparece como atividade, pois o que é bom só é
mostrado em seu resultado: numa felicidade e numa sustentabilidade como
objetivos (a felicidade é um desejo a
ser concretizado com responsabilidade social e ambiental - a sustentabilidade). O pensamento que "empurra" o que é
bom para além da cooperação é o mesmo que só reconhece o bem para uma pessoa
por ser prática; pensamento este que torna o bom e o belo algo subjetivo e portanto difícil a percepção
do que seja um bem comum.
A polaridade da cooperação na ordem econômica
remete, por outro lado, a uma devoção de vida e a uma vocação, ambas dirigidas
ao bem comum como consumação de uma promessa.
E não somente como resultado das relações entre vantagens e ônus,
incentivos e sanções disciplinares, custos e margens. Mas, é muito importante ressalvar: ambos os
sentidos não são excludentes. Ao
contrário, são integrados.
Qual é a proposta?
Para lidar adequadamente com o repertório de
idéias que dizem da cooperação como transcendente da cooperativa é necessário
adquirir o que chamarei aqui de competência hermenêutica para a cooperação. A teologia é matéria de estudo com potencial
para o amadurecimento dessa competência.
Proponho colaborar com o artigo no
empreendimento dessa aquisição. Em
outras palavras: se a identidade cooperativa é um problema insistente, a
perspectiva teológica pode nos suscitar diferentes planos para a própria
identidade.
A
competência hermenêutica então passa pelo esforço, propósito e hábito em
apropriar-se de repertórios de ideias e deságua na distribuição do apropriado
aos diversos setores que reconhecem a identidade cooperativa em seus processos
- marketing, jurídico, formação
pedagógica etc.
Em seguimento, a competência se renova pelos
diálogos abertos para retroalimentação e avaliação permanente das expressões e
dos silêncios dos próprios repertórios aos desafios das cooperativas com vistas
à adequação do que se conhece como identidade cooperativa.
[i] "As cooperativas baseiam-se em valores
de ajuda e responsabilidade próprias, democracia, igualdade, equidade e
solidariedade. Na tradição dos seus fundadores, os membros das cooperativas
acreditam nos valores éticos da honestidade, transparência, responsabilidade
social e preocupação pelos outros". (Congresso Centenário de
Manchester, 1995)
[ii] "Único
caso entre os modelos empresariais, as cooperativas fornecem recursos
económicos sob controlo democrático. O modelo cooperativo é comercialmente
eficiente e uma eficaz forma de fazer negócios que cobrem um largo espetro das
necessidades humanas"(p. 2)
"O ambicioso
Plano – a “Visão 2020”- visa que em 2020 a forma cooperativa de negócio se
torne: (....)
o tipo de empresa
com mais rápido crescimento (....). Por
isso acreditamos que as prioridades maiores são levar cada vez mais pessoas a
conhecer a forma cooperativa de empresa (....) "(p.3)