domingo, 17 de julho de 2022

Pensando & Conhecendo LV

 Quando dizemos que nada há aí, já se nos abriu uma perspectiva de mundo.  Nada, ainda; por enquanto.  Há mundo que já-aí virá a preencher essa ausência com alguma presença possível.

Mas, o que é mundo? Há três possibilidades de se dizer mundo. 

  •      o campo das relações próprias de cada um de nós com o já-aí (mundo porvir)
  •      o meio ambiente e circundante das relações entre nós com tudo mais (mundo posto)
  •      o conjunto de relações horizontais entre algo e acontecimento (mundano)

É desse enredamento relacional que se pode afirmar que mundo seja  síntese de todos os horizontes ou campo genético, normatizante e normalizante de significados.  Ou o conjunto de significados articulado pela vivência de sentidos que sempre são históricos e sociais.  

Ou solo do qual somos constitutivamente estrangeiros; o deserto que somos convocados a atravessar.  Este deserto nos é familiar, nos é tão próximo que é a nossa pele.  Ou então, um abismo se abre  aí sob nossos pés como desterrritorialização, sempre já se reterritorializar eis que, sendo o abismo sentido da vertigem, é constitutiva numa aversão às ambiguidades e incertezas no nada que é este salto a nenhures.


  



sábado, 16 de julho de 2022

Pensando & Conhecendo LIV

 Qual a diferença entre a viagem delirante e a especulação filosófica?  O conceito.

Tal como o delírio paranoico ou o passional, o conceito recompõe horizontes  (planos e perspectivas) e articula fenômenos como acontecimentos que parecem difusos ou evidências sem relação entre si.  Mas, o conceito cria uma relação dinâmica de diferenciação e identificação (diferenças não identificadas antes ou identidades não diferenciadas antes), com que se muda a forma de perceber fenômenos e então há recomposição e articulação como entendimento.  Um conceito diferente torna possível argumentos serem originais,  o que é muito diferente do delírio que afete a percepção de fenômenos ao mudar a articulação das evidências, mas não traz qualquer fecundidade à argumentação.

Com o conceito, a produção da subjetividade é cartografada na sua relação com os planos de força e recalcitrâncias.  Não há um método, mas o hodos-metá, pois a descoberta não vem enfim com os meios empregados, mas aí no meio dos meios.  

Há no conceito uma ambiguidade entre sobrevoo na recomposição horizontal de perspectivas e mergulho na implicação e nos acessos.  Como disseram Deleuze e Guattari, " (....) ele é imediatamente copresente sem nenhuma distância (...) O conceito é um incorporal, embora se encarne ou se efetue  nos corpos (....) Não tem coordenadas espaço-temporais, mas apenas ordenadas intensivas".  (O que é a Filosofia? 2a ed.  Trad. Bento Prado Jr e Alberto Alonso Muñoz.   São Paulo : 34, p. 33).  Um conceito sempre diz da maneira como a intensidade se desenrola ou se anula num estado de coisas




terça-feira, 12 de julho de 2022

Pensando & Conhecendo LIII

É possível conhecimento sem se recorrer a métodos de domínio assegurado sobre estado de coisas e seus desdobramentos espaciais e temporais? Ao menos, razoável reconhecer que não haja conhecimento possível para além dos fenômenos.  Seja porque todo acesso a entes mundanos seja situacional, ou seja, em perspectiva; seja porque não haja meio de discernir no imediato da percepção, a presença sensorial ou sensacional da coisa da distorção, delírio ou ilusão presentes.   É até possível admitir existência para além dos fenômenos. Mas aí, a fé.  Por outro lado, também será forçoso admitir que todo acesso racional não seja originária, mas sempre será reflexiva. 

O conhecimento é correlativo.  Há correlação entre percepção e presença.  Sendo que a percepção tenha suas próprias relações, e a presença tenha as suas.  São esses padrões relacionais que se correlacionam.  Essa correlação é compositiva e imediata, de modo que não haja precedência, causalidade e consequência para se analisar nas correlações, mas somente a partir delas.  Correlação aqui é performance dinâmica originária na relação entre ser humano e mundo.    

O mundo então é uma totalidade complexa de relações constituídas por forças que atravessam uma multiplicidade de planos entrecortados por referências, sensações e conceitos:  Força e plano são elementos relacionais constitutivos arranjados historicamente como modos encarnados; carne é a presença de corpo e campo em que esses modos se configuram para uma análise topológica dessas relações. 




quarta-feira, 6 de julho de 2022

Pensando & Conhecendo LII


Ethos  é caráter, costume e moradia.  Na ética, um modo de ser de alguém como o abrigo da sua humanidade em si, com que toca, afeta outrem (pathos) na conjugação do verbo (logos). Na ontologia,  ethos se refere à presença dando-lhe consistência ao seu modo de ser, o que é imediatamente afeta (pathos), vez que já seja coexistência necessária no mundo.  As linguagens tornam mundo um comum-pertencer; é linguagem a mesmidade entre pensar e ser.  Sem o logos, coexistência seria uma homeostase caótica, já que institui a distinção imaginária entre permanência e performance no existir. Ethos e Pathos estabelecem uma relação biunívoca no logos.  

No logos,possibilia e sensibilia –  possibilidades e sensibilidades virtuais, mas existentes para além dos sujeitos e objetos, não somente no reino das deduções e induções (alética), mas também no devir de si-mesmo no reino das sensações e sensos (hilética).  Para o devir, lançaram-se Deleuze e Guattari no ensaio  Percepto, Afecto e Conceito.  Para eles, conceituar é bordejar entrelaçamentos binários.  Partindo da estética, vez que lide com a mais transitória das vivências – as sensoriais,  nela melhor se demonstra as materialidades do devir:

O ser da sensação, o bloco do percepto e do afecto, aparecerá como a unidade ou a reversibilidade daquele que sente e do sentido, seu íntimo entrelaçamento, como mãos que se apertam. (...) Não é esta a definição do percepto em pessoa: tornar sensíveis as forças insensíveis que povoam o mundo e que nos afetam, nos fazem devir? 

 No plano das forças para o devir no ser da sensação, realidade entre possibilia no reino da lógica e a possibilidade no reino dos fatos.




sexta-feira, 1 de julho de 2022

Cooperativas, Justiça & Cultura

 


https://www.amazon.com.br/dp/B0B5F9LV66


Descrição do livro:


A cooperativa como universalmente justa para a ordem econômica constitucional é o imaginário temporal partilhado e instituinte do que passa pela centralidade do homem face ao capital e ao mercado. Ser capaz de dizer dessa humanidade é um desafio para a insistência na percepção pessoal e singular das cooperativas universalmente identificadas no mundo da vida.

Para dizerem dessa centralidade, os cooperativistas amiúde enfatizam a singular relevância da ideia de felicidade na compreensão da cooperativa como fenômeno social.  O livro assume essa ênfase como uma provocação e responde a isso.  Não uma resposta banal, mas enredada num percurso pelo pensamento contemporâneo: a busca por um sentido de Justiça que dê conta da pretensão de legitimar e ampliar a experiência cooperativa é o leitmotiv dessa jornada na companhia de Pascal, Kant, Goethe, Hegel, Kierkegaard, Dostoiévski, Melville, Proust, Heidegger, teóricos da Gestalt, Lévinas, Castoriadis, Deleuze, Ricoeur e Lipovetski cujos filosofemas e narrativas se imiscuem ao longo de todo o livro.  Há densidade, mas não dificuldade: a prosa é clara e amiúde dispensa os léxicos pela simples persistência do autor para que o leitor compreenda o ponto em questão antes de partir para outra incursão vertiginosa, qual montanha russa..    

O prefácio antecipa que o fio condutor do livro é qual uma navalha na carne:  na cooperativa, assim como em todo fenômeno cultural, o normal e o patológico não se opõem um ao outro como dois contrários, mas sim como duas partes de um mesmo todo.  Então, ao invés de capítulos, fica melhor em falar em cortes, recortes e retalhos.

O primeiro retalho tem por título O que identifica uma união de pessoas como cooperativa? . É uma apresentação da cooperativa numa abordagem fenomenológica transcendental com a qual a cooperação se faz presente como valor.  Toda fenomenologia é um começo.  Mas, que nada tem de superficial: em se tratando de fenomenologia, o mais profundo é a pele.    E para fulgurar a cooperação como valor num sentido tão imediato como a que se dá pelo tato, o segundo retalho Amor, Justiça e Verdade é teológico. Essa abordagem pouco usual já se faz presente no tipo literário :  uma epístola.   Em que textos canônicos e o magistério dos Papas Bento XVI e Francisco articulam a presença forçosa das cooperativas na atualidade da Doutrina Social da Igreja Católica Romana.  

Do espírito às vísceras.  O terceiro corte Sonhos interrompidos e os rostos humanos transita para a fenomenologia existencial e a temática resvala para a economia da saúde.  Com isso, o leitor identifica  a morada do normal e do patológico que se apresentam como lábios fendidos de um corte por bisturi.  O quarto corte já sangra: em Cooperativas e Madalenas, o fenômeno das cooperativas de médicos especialistas em procedimentos de alta complexidade é correlacionada com  crimes de cartel.  Uma aguda tensão a abismar o leitor: como ideias tão díspares podem estar tão próximas na economia da saúde?  Se aí a abordagem é ontológica, no quinto, outro recorte, já é lógica aplicada ao conhecimento:  A agência epistêmica face os argumentos de autoridade.

Mais 3 retalhos, a esquizoanálise e os cortes se fazem metodológicos. Em Cooperativas sem degredados, a ideia de felicidade é separada da funcionalidade.  Já em O carro de Jagrená por entre palácios de cristal, é o risco e a transparência em gestão que assumem o horizonte de primeiro plano.  O texto então culmina na psicossociologia e a análise institucional em Por que a norma deveria ser a regra?  Como o primeiro retalho é encimado com uma pergunta, também é epigrafado o último.  Como que indicando ao leitor ser ele quem deve concluir a obra com a sua leitura.  O texto quase nada ensina, mas muito insinua a ele.  Então, o posfácio que faz um exercício de aplicação prática de tudo que foi insinuado. No caso, o corpo se faz cooperativas de crédito.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Pensando & Conhecendo LI

A esquizoanálise é um esforço filosófico de distinguir.  Em termos metodológicos, ela dá voz da recalcitrância à escuta.  É uma trilha pelo qual se perde a marcha  em vista do horizonte inicial de uma pesquisa e se encontra o passo que não estava previsto.    Uma hipótese no meio de outra hipótese.  Outras possibilidades de compreensão do fenômeno e diálogo que desorganizam e reorganizam os dados na medida em que o pesquisador redescobre o alfabeto. 

A expressão-chave da esquizoanálise é transversalidade.  A transversalidade distingue hierarquias (verticalidades) e corpos (horzontalidades) organizados.  Atravessa, desmancha e (re)institui territórios como quem desfez e refaz interações entre os múltiplos pontos de uma carta geográfica.     Não se trata de uma refutação da hipótese inicial, mas dos pressupostos dela, à formulação do problema, das articulações entre agentes e coisas.  Não se trata de chegar ao elementar; mas, o oposto:  ao complexo - à ampliação de espectro dos determinantes, uma rede heterogênea de concorrentes nos campos de forças dinâmicas em realização aí de um plano comum, mas já diferente. 

A esquizoanálise é envover-se pelo lusco-fusco, dar-se ao movediço; sentir a vertigem e a surpresa de todo acontecimento criativo na produção de saberes.    






terça-feira, 21 de junho de 2022

Pensando & Conhecendo L

Pode-se dizer um marco do séc XX algo que diferencie significativamente características  sociais e históricas do séc XIX do XXI.  Um marco assim foi epistemológico.  É a compreensão de que estamos sempre em busca de um padrão para compreendermos algo que se nos apresente à percepção.  Se essa busca não começa a partir da consciência, mas do corpo, já se dá ao nível biofísico.  No entanto, não há uma relação entre o que se estabelece nesse nível e a compreensão.  Se assim fosse, haveria algum tipo de predeterminação, mas isso não acontece, porque vigoram correlações.  Ou seja, há imbricações entre a fisiologia cerebral e os fenômenos tanto para a consciência como para o inconsciente.

Essas correlações são transversais, oscilantes e circulantes entre a consciência e a inconsciência em relações biunívocas por entre entrelaçamentos binários.  O que transversa, ele mesmo é tão somente presença.  Que não pode nem ser figurada ou representada, senão já oscilante e circulante.     Então, a realidade é incontornavelmente aberta e dialogal, ainda que existam padrões mais persistentes do que outros para dizer da presença, que só pode se dar já relacionada com a existência como entrelaçada com a identidade e diferença; natureza e forma; eu e mim mesmo (self); conceito e noção; texto e contexto.