domingo, 4 de julho de 2021

Pensando e Conhecendo XXX

Não pode ser confundido com um sujeito solipsista o ente universal pressuposto como alguém que crê e busca por si justificativa em suficientes evidências (dados probantes) da verdade. Exatamente por isso, a epistemologia dedica tanta importância ao testemunho. A sócio-historicidade radical do conhecimento encontra acesso epistêmico por ele.  Em particular, para o Direito Penal Econômico, uma variante do testemunho precisa ocupar um lugar central, se se quer resgatar a necessidade da epistemologia numa caracterização rigorosa do que seja verdade: o argumento de autoridade.  Ou seja, diante da proposição de alguém investido de autoridade, trata-se de avaliar as evidências que justificam crer no que ele assevera como verdade.  Mas, essas evidências não são exatamente as mesmas de uma proposição de primeira mão, ou justificativa individual.

A epistemologia social surge das evidências de credibilidade com que se justifica a crença transmitida entre pessoas no contexto coletivo ou institucional.   Não somente se crê em algo, eis que imediatamente está relacionado a crer prima facie no que propõe alguém por deferência a ela, o que torna possível partilhar conhecimento como um bem comunitário.  Mas, a confiança epistêmica é específica e intransferível a cada proposição.  Ou seja, a autoridade epistêmica advém da reconhecida capacidade em transmitir conhecimento.  Ela não se confunde com a investidura de autoridade, seja moral, militar, política, religiosa, técnica, científica ou de qualquer outra ordem. A deferência se relaciona com a investidura, mas a preponderância dessa investidura como determinante da aceitação é evidência de uma crença potencialmente injustificada em termos epistêmicos.



segunda-feira, 14 de junho de 2021

Defesa de tese de doutorado e titulação acadêmica em 11/06

 


PPGD/UERJ

Cartéis e Cooperativas: a agência epistêmica face o argumento de autoridade

Orientador Prof. Dr. Artur Gueiros

Banca:  Profs. Drs.  Carlos Eduardo Japiassú, Jorge Câmara, Renato Moraes e Ana Frazão.

Pensando & Conhecendo XXIX

 A realidade é o que aproxima a metafísica da epistemologia.  Por definição, a metafísica é o estudo dos vários problemas filosóficos sobre a realidade.  Conquanto a epistemologia seja o estudo dos vários problemas filosóficos sobre as tentativas de conhecer a realidade.  No campo dos conhecimentos empíricos, a distinção entre metafísica e a epistemologia é bem mais fácil de ser percebida, porque ela se mostra cogente numa delimitação metodológica.  A empiria descarta de sua alçada cognitiva qualquer saber que não possa ser rigorosamente certificado por alguma observação sensorial em articulação com a sistematização matemática.  Mas, isso não resta nada evidente, quando se trata da hermenêutica.

Eu posso dar voltas e mais voltas coerentes, mesmo sem nunca tocar num eixo teológico, porque em seu fundamento último emerge o mistério.  Mas em ciência, não há mistério em seu fundamento.  Há desconhecimento.  A pergunta fundamental da epistemologia não é o que se conhece do que se sabe.  Mas, é o que não se conhece do que se sabe.  Sabemos das funções lineares da geometria analítica que, no limite, nenhum dos infinitos raios tocará o eixo de um círculo, pois sempre se desconhecerá este ponto infinitesimal; mas é na existência desse limite que toda roda gira.




sexta-feira, 28 de maio de 2021

Pensando & Conhecendo XXVIII

O início de pensamento é o espanto, o assombro, o abismo, mas não a crença.  Explicar já não é pensar.  É raciocinar, o que sempre é reflexivo; não é inflexivo como o pensamento de onde emerge uma crença já como linguagem.  Criar linguagem faz parte da atividade filosófica, um desdobrar em pensamento.  A estranheza não se confunde com invalidade veritística.  A lógica contemporãnea é capaz de lidar até mesmo com a esquizoanálise de Deleuze.  Bastante entender que se trata de proposições antifundacionistas, o que o coloca dentre pensadores coerentistas.  A discussão entre coerentistas e fundacionistas rebate até hoje na regressão ao inifinito exposta por Blaise Bascal ainda no XVII.

Se não acompanhamos um texto escrito por alguém não o faz necessariamente obscuro, é preciso primeiro distinguir se ele apresenta algum fundamento, ou se não, alguma coerência. Quando se está criando linguagem, isto leva tempo e requer paciência do leitor. Pois a medida do pensamento não é dada pela nossa capacidade de acompanhar a linguagem emergente por quem está pensando.



sexta-feira, 14 de maio de 2021

Pensando & Conhecendo XXVII

 Para a lógica, doxa é crença.  A crença é o  limiar entre a   lógica e o fenômeno, na qual uma estrutura inconsciente lhe dá forma inflexiva (dimensão ontológica). A crença se mostra em linguagem, ou seja, ela emerge do inconsciente para a consciência em flexão linguística, no mais das vezes, declarativa: algo é; algo vale (dimensão ôntica). A flexão é o que correlaciona crença e conhecimento, vez que a cogitação seja sempre reflexiva de si para si diante de algo que seja ou valha. Da reflexão, a representação do acontecimento originário da crença num fato: alguém crê de algum modo em algo.   Então, um terceiro caráter diferencial entre  a crença e o conhecimento: a faticidade. A crença é relacional; o conhecimento é factual. Em suma, diferentemente do agente doxástico, o agente epistêmico lida com a derivação, reflexividade e faticidade. O agente doxástico lida com o acontecimento, a inflexão e a relação. Esses agenciamentos não se manifestam um sem o outro; da interatividade deles, emerge as imbricadas correlações entre opinar e saber.



quinta-feira, 6 de maio de 2021

Tierischer als jeder TIer. Agora no país basco

 Vista de Tierischer als jeder Tier1: as assembleias gerais digitais ou semipresenciais em cooperativas como controladoras de dados dos seus cooperados (deusto.es)




Pensando & Conhecendo XXVI

Não são sempre os princípios orientados para os fins que governam o devir do Direito através da função, porque na escuta do sofrimento alheio, por uma frase que acontece, há uma eloquência dos silêncios ou esquecimentos que se manifestam numa diferença simultânea à articulação das frases.  Essa ocorrência, Lyotard chamou de diferendo. Esse silêncio é a negatividade de um argumento impossível de ser apresentado em confronto com outro argumento positivado por inexistir um juízo de isonomia aplicável aos dois argumentos.

Por isso, nenhum encadeamento de frases é sempre determinado.  Senão no horizonte de um gênero dado de discurso cuja ordem e possibilidade funcionam de acordo com o fim a atingir, eis que em cada discurso dado há uma valência comunicativa: referente e significado; destinatário e remetente. O que coloca em xeque a ideia como símbolo sintético do heterogêneo e reflexivo da correlação entre determinadas manifestações singulares.  O diferendo surge onde há falta de mediação entre gêneros discursivos por escapar-lhe as faculdades cognitivas.  O diferendo é uma ideia que não apresenta um objeto à qual se lhe atribua uma função a que se possa valer num esforço metódico de solução de conflitos.  Antes, ele é um prenúncio pela alteridade obliterada da sua realização. 

 

Em vez de um imperativo de universalização, um imperativo de alteridade.