domingo, 28 de setembro de 2014

Fomos todos um dia José Maria-Ninguém

Peço desculpas, mas sem julgar as mulheres que abortam, não posso e não devo aceitar o argumento de que, sendo o Estado laico, o aborto é um assunto estrito de saúde pública.

A máxima "meu corpo, minha lei" supõe o corpo como inteiramente pertencente a uma pessoa. Isso é uma convicção cega, pois o corpo é fenomenal. 


A marcha das vadias expõe a ambiguidade do corpo fenomenal: Se a sensualidade não justifica qualquer violência sexual, a sensualidade intencional de uma mulher é expressão do desejo de ser desejada em seu corpo. Isso é fenomenal. Ou seja, uma vez que o corpo de alguém me afete, ele, de certo modo, também me pertence. Todo corpo é existencialmente compartilhamento. E aí se constitui a ética. Eticamente, meu corpo não pertence só a mim.

Daí que a vida de um embrião, por ser totalmente dependente do corpo de uma mulher, não pode ser totalmente empoderado pela decisão pessoal dela, sem que isso não seja um brutal problema ético. Este problema também é meu e seu.

Só posso ser quem sou, e mais ninguém. Como toda pessoa, posso, no entanto, vivenciar a mim mesmo como outro (o que acontece, por exemplo, no teatro).  Sei que nada sei de todo esse outro como si mesmo, mas que poderia vir a ser a mim mesmo.  Isso é uma vivência com a qual é possível a percepção da fraternidade.  Assim, posso eu vivenciar-me como mulher que sofre como nunca fui.  Mas, também como um embrião que já fui um dia.  Então, posso lembrar que um embrião já é uma vida que pode ser desumanizada até desanimada como estorvo, ônus.  Não-vida pela vontade de poder de uma única mulher, seu objeto de descarte. 

É fundamental o reconhecimento da autonomia pessoal para o Direito na decisão de quem toca o que no nosso corpo.  Pois alguém pode decidir uma invasão devastadora do outro no arbítrio de seus afetos com falhas de interpretação e questionáveis estados de ânimo.  Mas, nem por isso a decisão a respeito do aborto, por ser uma decisão de morte, se esgota na dimensão individual do exercício do livre arbítrio, pois afeta sobremaneira a comunidade no aparecimento e ocultação intersubjetivos dos valores à vida.  A expressão ubuntu quer dizer sou por quem nós somos.  Mas, a condição humana é originária das identidades construídas e reconstruídas - é uma vertigem imediata e impostergável entre o ubuntu e o verso de Píndaro genói oíos essí matón (Torna-te quem és).

Entre garantias individuais e uma moral comunitária, o Direito, para o aborto, não tem soluções naturais e neutras ante os alarmantes dados de sua prática, mesmo clandestina.   Qualquer que seja a solução jurídica dada para o aborto, se todas as mulheres são Jandira ou Elisângela, elas são essa diferença. 

Mas, antes de Jandira e Elisângela, homens, mulheres e transgêneros são também os esquecidos, os desconhecidos, sem gênero, sem classe, sem voz, sem nome, sem chance. Pois todos já fomos um dia Zé Maria-Ninguém. Sim, já vivemos uma igualdade absoluta no momento incerto em que vingamos e que sequer nossa mãe nos sabia. Ninguém deste mundo sabia de nós, olhava por nós, mas já existíamos igualmente. E eis um ensinamento possível dessa igualdade absolutamente real: estávamos todos inteiramente à mercê de outrem. Nos corpos de nossas mães, éramos os invisíveis, os intrusos, os estrangeiros, os confinados, os encarcerados, os sem-terra, os sem-teto, os moleques nos faróis, os refugiados da guerra e dos desastres ambientais, os ébrios pelos cantos, os anciões senis. 

Já no corpo de uma mulher, a liberdade é responsabilidade e sustentabilidade, compromisso com as gerações vindouras e respeito para com as passadas - para com aqueles que ainda não conquistaram sua voz na democracia e os que já a perderam.   O aborto não pode ser banalizado no Direito pelo Estado laico como uma prestação de serviço à disposição da freguesia, sem que nos tornemos uma sociedade mais estéril de sentidos para valores.

Mas, o que é isso, a fertilidade de sentidos para valores?


Ao se privilegiar o aborto como uma questão de saúde pública, se se solidariza nos tempos atuais com toda mulher e por isso se concilia seus direitos reprodutivos ao destino real de seus filhos impossibilitados. Já voltam à presença os filhos silenciosos de ΜΗΔΕΙΑ.   Medéia, há 2.500 anos atrás, abandonada por seu marido e desprezada como estrangeira, matou seus filhos e este gesto de desespero nunca deixou de se repetir nos palcos da vida.

Vale aqui um fragmento de Ser e Tempo:

"O ser para a possibilidade enquanto ser-para-morte, no entanto deve se relacionar para com a morte como possibilidade. Apreendemos, terminologicamente esse ser para a possibilidade como antecipação da possibilidade. Será que essa atitude não abriga em si uma aproximação do possível e, com ela, não emerge a sua realização? Essa aproximação, porém não tende a tornar disponível o real numa ocupação. É no aproximar-se da compreensão que aumenta a possibilidade do possível. Como possibilidade a proximidade mais próxima do ser-para-morte se acha, face ao real, tão distante quanto possível. Quanto mais se compreender e desentranhar essa possibilidade, tanto mais puramente a compreensão penetra na existência das possibilidades em meio às impossibilidades. Como possibilidade, a morte nada traz à presença como realização. A morte é a possibilidade na impossibilidade de toda relação com a existência. Na antecipação, a possibilidade será sempre maior, ou seja, se desentranha como aquela que desconhece toda medida, todo mais ou menos, significando a possibilidade da impossibilidade, sem medida, da existência. Em sua essência, essa possibilidade não oferece nenhum apoio para alguma expectativa e para se configurar um real possível e, assim, esquecer a possibilidade. Enquanto antecipação da possibilidade, o ser-para-morte é que possibilita essa possibilidade e que a libera como tal." 

Ser-para-morte é ser sem razão alguma para ultrapassá-la (uma possibilidade ainda impossível), em que se distingue o sentir e o sentido confundidos no esquecimento das possibilidades para ser real.


Outro dia, li o ser-para-morte se dando na matemática.  Infinitos são os raios de um círculo, mas é onde raio  algum alcança que começa e termina o giro de toda roda.  Na matemática, o ser-para-morte é o raio para o eixo, ou o eixo para o raio.  

No ser-para-morte, há um sentido de lógica originária, em que logos é pura forma (logos no sentido da demonstração matemática do big bang), e é pura matéria (logos no sentido de presença no caos).  O ser-para-morte como "antecipação" de possibilidade na morte, que é possível, mas nada traz por si à realização de uma possibilidade, é instauração do tempo como uma sucessão imutável de acontecimentos de um antes em direção ao depois e que é um instante irrepetível entre o já e o aí.   O ser-para-morte é tempo como acontecimento totalmente indefinível, mas existente, ou totalmente definível, mas inexistente entre o antes e o já e também entre o depois e o aí.  Como o círculo e a roda acontecem na matemática, o logos é o Big Bang e o Fiat lux.  Uma "grande síntese" não se dá para a razão, mas na sua (im)possibilidade no acontecimento, pois se dá na "ginga" de aparecimento e velamento, que só é contemplado no poético!  É o sentido da frase de Carneiro Leão: a verdade é a ginga da capoeira em que ela dá rasteira em si mesma.    É ou não uma bem humorada definição verdadeira da verdade?  

Pois bem, um humanista vê nos filhos de Medéia a alegoria do patriarcalismo e que, na História como história do esclarecimento humano, devem morrer. Mas isso vela um sentido da morte deles nos alvores da democracia. De Medéia, os filhos nasceram grandes e morreram grandes. A compreensão do sofrimento desta mulher, de toda mulher, pode ser grande na inversão impossível da sorte trágica de seus filhos possíveis. Aí, uma política grande.



foto 1 http://frentelegalizacaoaborto.wordpress.com/
foto 2 http://noticias.r7.com/blogs/marcos-pereira/2012/05/28/marcha-das-vadias/
foto 3 http://marinorbrito.blogspot.com.br/2012/05/na-marcha-das-vadia-lugar-de-mulher-e.html
foto 4 http://www.harisingh.com/UbuntuAge.htm


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A presidente Dilma no templo de Salomão

Um arquiteto amigo meu mexe profissionalmente com arqueologia. Ele me comentou que o templo da Universal inspirado em Salomão tem um estilo arquitetônico bem mais recente: remete ao tempo de Herodes. O que é irônico. 

A IURD opera com uma expressão de fé que se notabiliza por seu caráter sincrético, enquanto se nega como tal: tem sessão de descarrego, mas abomina a umbanda; oferece aos fiéis objetos com significados religiosos, como garrafinhas com água do rio Jordão, pedras do monte das Oliveiras, mas renega a imagética católica. 

A IURD é uma usina de reciclagem do imaginário religioso brasileiro. Agora, está se aparelhando com referências judaicas. É uma síntese improvável de fundamentalismo e niilismo, uma religião processada e plástica. Ultrapassou o pragmatismo que impregna a teologia da prosperidade, porque se sobrecarrega com simbologia e de apelo sentimental. Mas, se distancia da harmonia gótica e da exuberância barroca, porque não expõe beleza, quando tudo está a serviço de objetivos práticos. 

Enfim, a IURD é para ser levada a sério, ainda que tenha muito da esculhambação cultural tão brasileira: a tropicália cristã não é a ecologia de Marina, mas sim o Edir Macedo se deixando fotografar travestido de rabino. Uma recriação evangélica do Chacrinha, uma versão masculina da Baby do Brasil. Um Joãozinho Trinta pentecostal. Será que ele ainda vai regurgitar a seu jeito um esoterismo do tipo Paulo Coelho no caminho de Santiago de Compostela? Uma coisa todos eles têm em comum: a potente capacidade de comunicar tudo junto e misturado.

Na minha adolescência, fui apresentado ao Edir Macedo por insistentes denúncias no jornal O Globo.  Só agora entendo o que o Roberto Marinho, esse genial caçador de cabeças, um anticomunista capaz de ganhar dinheiro com Dias Gomes, temia.  A via de subversão semiótica da ética e da metafísica cristãs.  

Uma amiga me pergunta:  Aonde vamos parar com isso?  Respondo.  Onde já estamos.  Ouvindo funk que entra pela janela, procurando vaga em estacionamento dalgum outlet e lotando parques temáticos da Flórida nas férias.  Se é assim, por que não orar no templo de Salomão? Porque, se não é para cultivar preconceitos demofóbicos, é o caso de se prevenir de tentações populistas.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Selecionado para o III Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cooperativismo











O artigo Cooperação como valor de identidade universal das cooperativas: Uma abordagem teológica foi selecionado para o III EBPC.  

Para esse Encontro, o eixo temático escolhido é o Cooperativismo como Modelo de Negócios: as cooperativas conquistam desenvolvimento sustentável para todos.  O artigo selecionado aceitou o tema como um desafio.  Eis o seu roteiro:

  • A Hermenêutica entre a argumentação e a narrativa
  • Uma Teoria da Argumentação na hermenêutica da ordem econômica  e um argumento hermenêutico a partir da primeira teoria
  • Um problema na expressão forma cooperativa de negócio que é encontrada no Blueprint da Aliança Cooperativa Internacional
  • Fundamentos teológicos para uma resposta possível ao problema na expressão forma cooperativa de negócio  

O artigo se propõe a demonstrar que a materialização da cooperação na ordem econômica remete a uma devoção de vida e a uma vocação, ambas dirigidas ao proveito comum como consumação de uma promessa.  E não somente como resultado das relações entre vantagens e ônus, incentivos e sanções disciplinares, custos e margens.  Mas, é muito importante ressalvar: ambos os sentidos não são excludentes.  Ao contrário, são integrados na ordem econômica constitucional.

Ao vincular a cooperativa não só à inteligência (razão), mas ao amor, o Papa Bento XVI, escrevia sobre verdade. Considerando o significado das Encíclicas sobre fé, esperança e amor, escritas entre 2005 e 2013, em evidente referência à primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, o Papa Bento XVI afirmara no magistério teológico, o que o Papa Francisco confirmou agora em seu apostolado:  existe um nexo axiológico essencial entre a cooperação e a misericórdia e isso também se manifesta na ordem econômica constitucional.



  

terça-feira, 22 de julho de 2014

Cidade e cidadania, signos e significados democráticos

Há um tempo  se meteu uma idéia na minha cabeça.  Era uma maneira diferente de devoção mariana, que envolvia o Cristo Redentor lá no Corcovado.  Dediquei muita sola de sapato até obter o consentimento institucional da Igreja Católica para colocar em prática o que imaginei. 
E, na prática, não saiu como imaginado.  Tive uma vivência que não supus.  Algo que até sabia possível... em teoria de ler teologia.  Mas, não era o que me propunha realizar.   Equívoco meu.
Nada de grandiloqüente aconteceu. Mas, o extraordinário se deu eloqüente.  Uma vivência da graça  na dinâmica e potência em simplesmente agir com Maria para a Eucaristia.  Algo que, em memória, é assim:  lá pelas tantas as coisas já não saíam como imaginara, tinha de improvisar e precisei de ajuda de uma pessoa estranha na rua.  Eu o abordei e contei-lhe o que estava fazendo, o propósito disso e pedi a ajuda que precisava para ir ao Cristo no Corcovado.  Olhou-me, um marciano: eu, não ele, era o estranho.  Ele se virou para um conhecido dele ali próximo:  "Eu não entendi nada do que esse cara aqui falou, mas é importante. Vem cá!"  Ambos me ajudaram e assim foi com todo mundo com quem cruzei até que o corpo de Cristo se fez presente. Estava abismado: "Como isso foi acontecer assim?!" Desde então, venho experimentando dessa devoção uma vez por ano.  Como até hoje não encontrei qualquer explicação para essas conspirações que acontecem, uso uma expressão poética para dizê-las:  é o véu de Maria que me faz caminhar ao encontro do Cristo no Corcovado
Conto isso, porque nestes últimos dias, deu-se muita repercussão a reações indignadas contra a Arquidiocese do Rio de Janeiro por ela ter desautorizado a imagem do Cristo Redentor num filme.  O fato já foi superado e a posição da Cúria sobre a peça, revista.  Mas, ainda vale a pena pensar essas críticas feitas.  Em comum, todas as reações evocavam a liberdade de expressão e denunciavam um certo sentido de usurpação pelo clero de uma expressão cultural da cidade a exigir a tutela do Estado laico pelo bem da democracia.  Mas, todas também tinham em comum deixar de lado algo do Cristo no Corcovado.  Esse Cristo não é o cavalo do Osório na Praça XV.  Não é um só um monumento citadino, uma expressão mega e moderna de arte sacra ressignificada constantemente pelo imaginário na sua presença notável em muitos planos paisagísticos da urbe e assim reconhecível como patrimônio cultural coletivo da humanidade.  Tornou-se tudo isso, sim.  Mas, antes disso, já era e sempre foi um santuário consagrado à Nossa Senhora da Conceição Aparecida. E não deixou de ser.  
Num domingo de carnaval, com o Cordão do Boitatá na praça, sob a bunda do cavalo do Osório, assisti divertido a um simulacro bufo do sacramento de matrimônio. O amigo fantasiado de padre estava para lá de animado!  O que é a liberdade?! A encenação era foliã, mas os noivos estavam levando a sério a troca de votos que faziam ali. Uma paixão de carnaval que se transformava em promessa de amor.  Isso é cidade e cidadania.    Movimento e criação.
Mas, um sentido necessário de santuário não é nem movimento, nem criação.  É preservação vital.  No caso do Cristo no Corcovado, preservação da fé católica, que conspira pela bondade para a cidade até sob a sombra da bunda do cavalo do Osório numa manhã de carnaval. 
Cinema não é só liberdade de expressão.  É indústria cultural.  Como indústria, tem suas responsabilidades em preservar o que há de bom em torno de nós.   Talvez no futuro haveremos de discordar da Arquidiocese em uma decisão de veto. Compreendamos o papel autônomo dela na tomada de decisões sobre o Cristo Redentor no contexto do Estado laico. Há algo do Muro das Lamentações de Jerusalém no Cristo Redentor do Corcovado.  E vamos esperar que mesmo havendo vetos, não haja tanto a se lamentar assim, porque até agora a ninguém ocorreu de se explodir e explodir os outros em volta numa disputa em torno dele.
Fecha o pano.  Abre o pano.
Era vizinho do Palácio das Laranjeiras e ia diariamente ao meu estúdio no Largo de São Francisco de Paula.  Mesmo que não quisesse, muito de perto acompanhei tudo que aconteceu.  Os dias foram passando e vi entristecido muitas marcas de maldade nas ruas onde vivia.  Marcas de um modo de intimidação violenta que fazia muito tempo não se via na cidade.  E no Largo olhava de soslaio conspirações sintetizadas numa frase pichada no prédio onde trabalho: as idéias voltam a ser perigosas.
Mudei-me para algumas quadras do Maracanã e aí esperei a Copa.  E por mais violência nas ruas em que vivo.  Mas, desta vez, uma surpresa.  A polícia civil indiciou, o Ministério Público denunciou e o juiz criminal decidiu.  Ainda que sujeitas ao habeas corpus, as prisões ocorreram a tempo de desarticularem promessas de revolta, quando  há quem as queria expressas em paixões rancorosas.  Em que pesem mais reações indignadas pela liberdade de manifestação, embargaram um projeto de detonautas da cidade para o Maracanã. Doidos por um muro de lamentações sob as vistas do Cristo no Corcovado. 
Pode até ter sido pouca a justiça nas prisões.  Mas, este pouco, quando falta, faz muita falta.
O que uma estória tem a ver com a outra? A cidade, é claro.  Mas também as liberdades como espírito do tempo.  Espírito este estampado na capa de uma revista de celebridades que vi ontem no aeroporto do Galeão.  Uma denúncia de racismo.  Uma protagonista de novela da hora contava:  "Quando entro num restaurante, quem tem minha cor, ou está servindo, ou está limpando.  É o Brasil que diz ser esse o meu papel: servir e limpar."

Lembrei-me então de uma conversa.  Coisa de padre.  Assuntava querendo saber da minha vida.   E, proseando, suspirei naquele dia.  "Tenho sentido um sabor... de não ter gosto.  Quero muito me orgulhar do que faço de mim e por mais que procure, sempre acabo percebendo que o que fiz de melhor foi nas manhãs em que esfreguei panelas sujas do jantar de ontem. E não dá para ter orgulho disso, né?".    Naquele dia, ele, desses que andam de batina negra até hoje ainda que esteja o maior calor na cidade, abriu um sorriso raro e, olhando-me nos olhos, deu uma palmadinha no meu ombro.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Vida que segue


Ontem não é um dia para ser esquecido. Assistimos mais do que uma partida de futebol. Assistimos a morte de um mito. O mito da camisa canarinho. Não haverá mais crianças na Mongólia sonhando em vestir essa camisa.


Quando o impensável se mostra para todos num único acontecimento, um mito morre. Só morre com um choque de realidade a que damos sentido de aniquilação. Já tivemos duas eras Dunga, até esperávamos uma derrota, mas aquilo que todos nós assistimos?! Ninguém. Era o mito que morria.

Mas, a vida segue hoje. É sempre a mesma humanidade que sobrevive na passagem dos mitos. Mas também é outra humanidade. Pois, num choque de realidade, algo estava oculto sempre aparece em nós para nós. A vivência de si mesmo como outro.

Muito significativo que o mito morra diante de alemães. Carregamos essa idéia de que, diante de alemães, somos pobres de espírito. Como nós construímos nossos estádios? Como eles constróem estádios? Como jogamos e eles jogaram futebol. No deles, a mortalmente eficiente disciplina tática. Eles são de uma riqueza espiritual mítica. 

Hoje, o que estava oculto apareceu. Apareceu a bem aventurança de ser brasileiro. Alemães, como nós, também tiveram um uniforme mítico. O seu símbolo não era uma cor estampada na camisa. Era de ferro forjada em cruz negra. Não, não estou falando da suástica, apenas um símbolo ideológico. O mito é a cruz de ferro. Em sua riqueza, os alemães elegeram um outro campo como único digno de seu mito. Não como nós, o campo de futebol. Mas, o campo de batalha. 

Bem aventurados os brasileiros, porque seu mito morreu enquanto assistíamos televisão comendo pipoca. Eles tiveram seu choque de realidade amontoados em abrigos antibombas. Desde abril de 1945, ninguém mais sonha em ganhar uma cruz de ferro. Acordamos hoje temendo impotentes e aniquilados a gozação a sofrer dos nossos rivais, se a Argentina for campeã em pleno Maracanã. Os alemães acordaram no dia seguinte aos bombardeios aliados temendo uma onda de estupros, se o exército de ressentidos vindos do leste vencesse em sua cidade. 

Bem aventurado eu sou, porque hoje pela amanhã, cruzmaltino, pude sorrir, quando, vindo pelas ruelas do centro para a minha vida de trabalho que me aguarda, ouvi o troar de um riso desdentado: "E aí, quanto foi mesmo o jogo do Mengão ontem?" 

O lado bom da morte de um mito é este: nos tornamos quem somos.