sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Um beijo na história

Um  veterano nos embates eróticos situou o beijo apaixonado num ponto de inflexão:  para as mulheres, o fim do começo; para os homens, o começo do fim.  Sexismo à parte, o beijo apaixonado é a mais prazenteira expressão de um enigma, que é o tempo.
Conquanto um ósculo possa ser descrito como descritivas são as voltas que um relógio dá, o beijo é domínio e cultura.  Mas apaixonados, a experiência nos diz o diverso: estamos inteiramente envolvidos, mergulhados, entregues ao beijo.  Na poética constitutiva do beijo, é revelado o acontecimento da paixão, que se oculta no instante situado entre o antes e o depois.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Selecionado para o V Congresso Continental de Direito Cooperativo

Em 1994, eu cursava o mestrado em administração na EBAP/FGV. E era diretor financeiro de uma cooperativa.  Estava formulando a sua carga tributária, quando, naquela maravilhosa biblioteca da Fundação, veio-me às mãos os anais do I Congresso Continental de Direito Cooperativo, de 1969, ano em que nasci.  A bibliotecária parabenizou-me: era o primeiro a levar o livro para passear.

Foi nesse livro que conheci o prof. Dante Cracogna.  Seu artigo aproximação à noção conceitual do ato cooperativo mudou o que vim a ser, o ar que eu respirava, me apaixonei.  Li avidamente tudo dele que conseguia e os anais dos 4 CCDC que aconteceram nas décadas seguintes.  Poucos anos depois, o conheci pessoalmente na Costa Rica num encontro promovido pela ACI Americas, por ter rabiscado as minhas primeiras linhas sobre direito cooperativo.  Mais uns anos, tive a honra de ser coautor em dois livros coordenados por ele no contexto do Mercosul.

Enquanto fui responsável pelo jurídico da Organização das Cooperativas Brasileiras, persegui a realização do V CCDC.  Bom, consegui 2 Congressos Brasileiros, 2 Seminários de Pesquisa em Direito Cooperativo e 2 Concursos de Monografias.  Mas, o Congresso Continental...

Antes tarde do que nunca!  Finalmente, a ACI Americas resolveu que estava na hora do V CCDC.  E o Prof. Dante é que nem Zagalo... não perde um.  

E eu é que não ia perder também.  Mas, já não estou na OCB, nem na academia.  Não tem problema.  Tenho o dom de Dante.  E não tendo que funcionar, aí é que me entreguei ao Verbo.

A Comissão Organizadora me mandou dia 30 um comunicado:  todos os 5 artigos que lhe submeti foram selecionados para apresentação e publicação nos anais do Congresso:

  1. O fim das cooperativas na madrugada dos mortos
  2. Os sentidos de generalidade e adequação no tratamento tributário ao ato cooperativo
  3. O mico das comunidades organizadas em cooperativas subcapitalizadas vai para o ombro de quem?
  4. A promessa de amor com cooperação na defesa do consumidor passa pela concorrência
  5. A integridade é hercúlea, mas é possível criar a partir do impossível.
Pelos títulos, já dá para antever... literal e literariamente, em duplos, triplos sentidos, essa viagem tem algo para ser mais do que legal.



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As voltas do mundo e os ajustes de conta

Domingo, 8 de setembro.  Visitamos, eu e minha família, a família de uma amiga de escola de minha esposa.  Casada com um coronel do Exército, somos agora vizinhos e eles moram na antiga residência oficial do Ministro do Exército nos tempos do Estado Novo, ali ao lado do solar do inesquecível Chalaça.  Enfim, um domingo ameno à sombra de palmeiras imperiais.

Não deixei de me admirar com as voltas que o mundo dá.  Ele está comandando o famoso Batalhão Zenóbio da Costa, da Polícia do Exército.  No 7 de setembro, ele estivera lá, lidando com os garotos do "black block".  No dia seguinte, estávamos nós, homens feitos, celebrando comunhão com nossas esposas e filhos em torno de uma refeição. Há 25 anos, contei a ele ali, eu estava em formações "Schwarzer Block" em Berlim e Hamburgo.  Sim, eu também já fui um agitador anarquista desses que agora estão sendo presos.  




Olhamo-nos e compreendemo-nos.  A respeito dos acontecimentos do dia anterior, gás, feridos, gritos, fúria... concordamos: testosterona, impaciência e ilusão. Naquele momento, não iríamos discordar em nada, mesmo.  Éramos gratos pelo que tínhamos ali conosco.  O bastante.  Nossas esposas e filhos reunidos partilhando pacificamente o alimento.  

A Polícia do Exército foi criada sob o comando do General Zenóbio da Costa no seio da Força Expedicionária Brasileira.  E é justamente o seu 1o Batalhão, aquele que ocupa desde sempre o quartel da Barão de Mesquita, originalmente formado pelos heróis da luta contra a barbárie e pela democracia durante a 2a Guerra Mundial.

Que bem se pode fazer, quando se quer preservar a memória do mal em detrimento da memória do bem que se fez?

O coronel Luciano me sensibilizou.  O Batalhão Zenóbio é um monumento à democracia brasileira pelos bons soldados que por lá passaram.  Ele ainda me contou que, em 31 de março de 64, seu antecessor não se sublevou.  Avisou à tropa que cumpriria até o fim o seu dever institucional de garantir a segurança do Jango (o seu embarque para o estrangeiro) e depois entregaria o batalhão. Por respeito, não foi deposto; foi reformado.

É verdade que gente má e suas vítimas por lá passaram nos anos de chumbo. Isso precisa ser apurado.  Tampouco pode ser esquecido.  Mas, de tanto que se aperta essa mesma tecla, é injusto e deseducativo para nossos filhos que lhes seja negada, na prática, a memória do que o Batalhão Zenóbio da Costa tem de melhor para nos lembrar.


sábado, 21 de setembro de 2013

A língua e o sino

"Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, 
se eu não tivesse amor, seria como sino ruidoso ou como bronze estridente"
(1a Carta de São Paulo aos Coríntios 13:1)

O nosso (Papa) Francisco mandou bem.



Na sua primeira grande entrevista, concedida aos jesuítas, ao tratar das políticas de planejamento e organização familiar e da defesa da vida diante de temas como aborto e homossexualidade, voltou-se aos católicos para lhes pedir respeito, compaixão, sensibilidade e acolhimento para com quem pensa e age em desacordo com os ensinamentos da Igreja.  

Não.  Francisco não está propondo mudança de posições da Igreja.  Não se curva às modas. É uma marca de abordagem pastoral.  Só está sendo franciscano: compreender mais do que ser compreendido, consolar mais do que ser consolado, perdoar mais do que ser perdoado.  

Os fundamentos teológicos sobre os quais a Igreja assenta suas posições sobre esses temas já estão para lá de amadurecidos.  Mas, a questão relevante suscitada pelo Francisco é: os católicos não precisam se comportar o tempo todo como doutores da Lei divina.  Isso significa apenas uma leitura fragmentada dessa mesma teologia.  

Às vezes, até mesmo para os mais sinceros católicos é preciso lembrar que Moisés nos trouxe a Lei.  E Cristo a fez perfeita nos trazendo a paz. 

Ouso dizer que isso está expresso no Magnificat.  Maria canta que Deus olhou para sua humilhação como serva e doravante todas as gerações a felicitarão. Ela está grávida, mas seu filho não tem um pai de sangue conhecido.  Pela Lei mosaica, na sociedade patriarcal da época, a posição de Maria é a mais marginalizada que uma mulher poderia estar, mas por amor como ato puro (a sombra do Espírito Santo); isto é, sem forma alguma (e não de alguma forma, pois ela continua virgem), ela é elevada à condição de Mãe de Deus. 





O saudoso imortal Luiz Paulo Horta, em seu Diário de Leitura da Bíblia soube dar tratamento jornalístico a essa teologia:


"E há o Cristo cuja humanidade transborda como um rio de águas profundas.  Essa fascinante humanidade aparece em histórias como a que conta são João [ele reconta o encontro com a prostituta e o famoso tirocínio "atire a primeira pedra quem estiver sem pecado"] (....) 



"Esse é o Cristo da misericórdia, que aparece muitas e muitas vezes.  Ele tem todos os sentimentos humanos, ainda que expurgados de suas deformações.  Por isso, é falso o Cristo de algumas representações açucaradas.  Ele pode, eventualmente, falar com a mesma severidade de um profeta antigo.  E se há uma coisa que ele não tolera é a hipocrisia. Daí ele ser tão duro com os escribas e fariseus.

"(....)Não se pode condená-los indistintamente.  (....) Tendiam a enrijecer devido às condições políticas e culturais da época - a começar por uma moral que ia se desfazendo. (....) Contra esse contágio é que se erguiam os fariseus - e que eles foram capazes de criar uma consciência heróica em Israel fica visível na epopeia dos macabeus.


"Mas, a natureza humana tem suas armadilhas, e, por uma autoconsciência orgulhosa, os 'doutores da Lei' podiam cair na mesma miopia espiritual que atinge eventualmente um prelado católico ou um pastor protestante.  É a deformação contra a qual, um pouco depois, vai lançar-se São Paulo; a ilusão de que com a observância meticulosa dos textos da Lei [e não com a misericórdia] garante-se a justificação - a salvação eterna.  E tratando dessa cegueira espiritual, que se transforma em hipocrisia, o Cristo explode numa cólera terrível:  'Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais ao homem o Reino dos Céus! Vós mesmos não entrais nem deixais que entrem os que querem entrar."



Francisco, essa brisa que vem da janela aberta em seu claustro areja nossa Igreja.  Essa brisa é o Espírito Santo, que vivifica!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Termo de Cooperação

Firmei um termo de cooperação com os amigos e colegas Paulo Roberto Galli Chuery e Fabio Medina Osorio.  


Paulo Roberto é hoje o gerente jurídico da Unidade Nacional do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo. Nem é preciso mencionar o quão longa é a nossa trajetória comum. Bastante dizer que foi ele quem me apresentou o Fabio Medina Osorio tão logo soube que eu havia distratado a minha sociedade de advogados.  


O Fabio dispensa elogios. Conhecido entre a magistratura e o magistério, é Doutor em Direito Administrativo pela Universidade Complutense de Madri, Mestre em Direito Público pela UFRGS.  Seu livro Teoria da Improbidade Administrativa, publicado pela Revista dos Tribunais, já se encontra em 3a edição.  Outro livro que merece destaque é o Direito Administrativo Sancionador.  Membro do Ministério Público do Rio Grande do Sul até 2006, exonerou-se para exercer a advocacia.

Por este termo, estaremos colaborando permanentemente uns com os outros e, por isso, estamos impedidos, enquanto o termo não for rescindido, de advogar para partes adversas numa lide.

Sabemos que somos bons, muito bons, no que fazemos.  Admiramos uns aos outros.  Mas, estamos planejando para, compartilhando nossas virtudes, que, em 2014, nossos clientes tenham em Brasília e no Rio de Janeiro de nós uma atuação em conselhos e tribunais administrativos e judiciais ainda melhor, muito melhor.  

sábado, 14 de setembro de 2013

Três paradoxos de um tempo aos pedaços

Esgotamos o corpo e a mente para acumularmos patrimônio freneticamente
Consumimos o patrimônio para recuperarmos com urgência saúde
Projetamos com tanta ansiedade um futuro
que não o gozamos nem pelo convívio, nem pelo sonho
Afastamos o sofrimento a todo custo
e morremos como se nunca tivéssemos vivido.



domingo, 8 de setembro de 2013

Pai e filha

Temos uma brincadeira.  Ela joga um tema e nós pensamos juntos o pensamento do dia.  

Ela é gulosa.  Do limão, a limonada.  A Janete está ensinando ela cozinhar.  

Ontem, ela fez pudim.  Um, não.  Claro, dois.  Um, de pão.  Outro, de leite.  

Acordou hoje e me saudou como? "Pai, tema do dia é pudim!".  

Pensei, pensei....  Depois de muitas gargalhadas com ela... Bom, taí o pensamento: 

"A macaca  virou mulher, quando aprendeu a cozinhar.  Mas a mulher só descobriu que tinha valido a pena o esforço, quando serviu pudim."