Porque, em linguagem metafisica, o corpo eucarístico remete ao paradoxo entre pessoa e mundo. O
corpo encarnado evidencia que nada nos separa do mundo, mas paradoxalmente
entre pessoa e mundo há um abismo:
animais são mundo, mas só pessoas não se confundem com o mundo - pessoas
têm potência para se perceberem destacadas do mundo e isso acontece ao
atribuírem um sentido textual para si mesmas, para outrem e para as coisas além
da pura e simples vivência - a sobrevivência e a sucumbência como sentidos de transitoriedade: conhecer,
lembrar e imaginar como saber viver e morrer.
O corpo neste texto é expressão de uma ambiguidade em que ser humano é
nebuloso. Tem (e não tem) corpo; é (e não é) corpo. Nem a consciência é sempre
ser; nem o corpo é sempre morada do ser. Na percepção do comportamento humano
com a abertura a plúrimos temas entre ser
e ter corpo, este emerge na
realização do real.
Qualquer narrativa dramática encontra aqui o seu sentido originário e ela culmina numa
perplexidade: a justiça perfeita não se mostra sem que antes se mostre a
angústia extrema, que se expressa num brado de abandono. A justiça perfeita
assume para si todo o sofrimento, toda a necessidade de ajuda da humanidade
inteira. Assim, não é que haja nada além do Direito;
há alguém cujo sofrimento é motor pela empatia a atrair à justiça o Direito por
reflexão.
Se para o pensamento, tudo deixa vestígios do
Nada, o acontecimento ético é o aparecimento do Outro que nada deixa para o
Nada ao ocupar toda a vazies existencial.
O vestígio então é anúncio de alteridade. Só na ausência impossível de si, reconhece-se
totalmente o Outro, o que torna carne a visão plena do invisível. 

